segunda-feira, 21 de março de 2016

Torres del Paine! Como foi viver dois dias no modo primitivo e minha quase morte lá


Vou relatar aqui sobre minha ida a Torres del Paine, passeio feito no mochilão de setembro de 2015, na Patagônia.

Não é de hoje que sei dos meus neurônios a menos...e sendo bem franca, sou muito feliz com minhas maluquices...porque de louco e médico todo mundo tem um pouco! E é claro que eu não poderia deixar de fazer alguma loucura lá pelas bandas da Patagônia! Considerando que minha parceira de viagem também tem problemas sérios em fazer bizarrices, boa coisa não ia sair dessa viagem.


Bom, o caso aqui, ao invés de maluquice eu chamaria de aventura e superação de limites. Ao ver as fotos de Torres del Paine e o circuito W, surtei! O lugar é lindo demais... Eu precisava muito conhecer. Mas lendo a respeito de como chegar, as dificuldades que eu teria que passar, praticamente descartei a ideia. Inclusive quando um amigo me perguntou se eu faria a trilha completa, eu respondi: tá doido! São 78 km! Sem conexão nenhuma com o mundo, acampar no meio do mato por cinco dias, fazer pipi no mato, comida escassa, caminhar 78km com uma mochila pesada nas costas, temperatura negativa e ainda correr o risco de ser atacada por um puma e pegar ventos de mais de 100km...Jamais! Sem chance!
...
Pois é...
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Então...
...
...
...
Mudei de ideia e resolvi fazer a trilha! Aeeeeeeee uhuuuu, eu e minha amiga louca resolvemos fazer.

Muito antes da viagem eu e a Liz já havíamos pesquisado muito sobre o famoso Circuito W e ambas estavam de acordo e preparadas. Sabíamos que não seria nada fácil. Mas fomos em frente. Não sabíamos o quão difícil seria!


Mapa do Circuito W
Um dia antes, passamos no mercado em Puerto Natales e compramos comida para os 5 dias. Calculamos diversas vezes. Estaríamos no meio do nada, se faltasse comida, passaríamos fome...se sobrasse comida, seria um peso extra por 5 dias nas costas. O bagulho começou a ficar tenso! Ao arrumar a mochila e ver que eu estava levando apenas duas mudas de roupa e o resto era somente comida, barraca, saco de dormir, bastões de escalada, fogareiro e demais coisitas necessárias para a trilha, bateu um frio na barriga e uma vontadezinha de desistir. Eu e a Liz nos olhamos sérias sem falar nada. Acho que ambas estavam com o mesmo sentimento. Medo e a certeza de que somos malucas. Nessa hora lembrei da promessa que fiz a minha mãe, de voltar viva.

Chegamos na entrada do parque. A primeira coisa que você tem que fazer é um treinamento de como se comportar se você se deparar com um puma...sim...um PUMA! Cara, eu não quero ter que fugir de um puma haha. Com certeza subornar llamas em Machu Picchu com um pacote de bolacha waffer seria fichinha perto de encarar um puma. Mas ok! Passaram mais algumas orientações, como por exemplo, não fazer fogo, não fazer fogo, e em hipótese nenhuma fazer fogo! hahaha não coloquem fogo em uma das trilhas mais lindas do mundo seus idiotas! Ok, entendido!



O ônibus nos largou na entrada da trilha e o motorista desejou boa caminhada...me pareceu um pouco sarcástico...nossa e que frio na barriga! Agora era eu, Liz e nossas mochilas. 


Olha o sorrisão! Felizona!
Começamos a caminhar...não demorou muito para começar a aparecer os perrengues. Dois dias antes havíamos feito uma trilha em El Chaltén, e nossas pernas ainda doíam. Liz começou a sentir a perna doer logo no início. Andamos mais um pouco e encontramos uma chilena quase desistindo da trilha logo no primeiro quilômetro. O problema dela foi muito fácil de resolver...era apenas a mochila desregulada ao seu corpo. Ajudamos ela a ajustar a mochila e ela seguiu conosco. Muito querida por sinal!

Resolvemos iniciar o circuito ao contrário, pela última "perna" do W, para chegarmos as tão desejadas torres. Se não aguentássemos fazer o circuito completo, ao menos o objetivo principal havia sido alcançado. Porém, a parte das torres é a pior, a mais difícil, aquela a quão você se xinga o tempo todo por ter tido a infeliz ideia de fazer aquilo. E sabe o que é o pior? Não tem como desistir. Você está em meio ao nada, não tem como chamar um taxi e ir embora rsrs.

Subimos 5 quilômetros, muito tensos por sinal. E bendito inventor do bastão de escalada, sem eles teria sido impossível chegar lá. Tivemos sorte de não encarar os tão temidos ventos de 100km/h da Patagônia. Passamos por lugares, que se batesse vento, não haveria chance de não cair do barranco. 



Chegamos ao acampamento mortas com farofa. E aí sabe o que descobrimos? Tchanammmm...o acampamento estava fechado. Estávamos fora de temporada...P@$&@! Sem banheiro, sem água, sem privada, sem luz...só nós e o mato! Não tínhamos opção, montamos a barraca ali mesmo. Montar aquela barraca toda esquisita foi mais difícil que tirar calça jeans molhada ou procurar uma virgem de 20 anos! Andrea, a chilena que estava com problemas com a mochila lá no início nos ajudou e demos jeito de montar a barraca. Fez muito frio nessa noite, quase congelei.


Nosso acampamento
Nossa intenção era acordar as 4 da manhã e seguir rumo as Torres, com o objetivo de chegar lá antes do nascer do sol e ver o espetáculo do sol transformando as torres em barras de ouro. Um casal que foi um dia antes já havia nos aconselhado a não fazer isso, pois a trilha é muito difícil e mal demarcada. Acordamos as 4 da madrugada, mas a temperatura estava negativa e chovia. Esperamos o amanhecer...

Do acampamento dava para ver as torres lindas! Com o sol batendo! Que espetáculo! E que vontade de estar lá. Arrumei a mochila e parti junto a Liz e a Andrea. As câimbras da Liz continuavam e ela e Andrea resolveram ir mais lentamente tirando fotos. Eu parti sozinha.


As Torres brilhando feito ouro
Andei os três primeiros quilômetros de subida. Foi difícil, mas suportável. Até que cheguei a uma placa que informava que faltava um quilômetro. Agora a p@$&@ ficou séria!




Gente! Quando me falaram que dava vontade de morrer no último quilômetro, não era mentira! E para ajudar eu ainda me perdi da trilha. Que tenso! Meu corpo doía muito e o desespero começou a bater na hora que eu me afundei na neve até metade da coxa. Perdida da trilha, é claro! Loira, tansa e teimosa, tem que se ferrar mesmo! Olhei para baixo e me deu 7 tipos diferentes de ruim em ver onde eu estava...afundada na neve, em um lugar super íngreme e qualquer outro passo em falso já era para mim. Lembrei da promessa que fiz a minha mãe de voltar viva. Olhei para todos os lados e não havia ninguém por perto que pudesse me ajudar. Foi quando pensei, ainda bem que estou com uma luva rosa pink, vai ser fácil de encontrarem meu corpo na neve rsrs! Que tenso!

As torres estavam muito perto, aproximadamente a 500 metros de onde eu estava. Mas se eu seguisse por aquele caminho colocaria minha vida em risco. Resolvi voltar a passos de tartaruga com o máximo de cuidado e quase chorando de não conseguir chegar ao meu objetivo. Saí da neve, onde era minha zona de perigo. Voltei seguindo o caminho de um rio em meio as pedras até que...achei a trilha de novo! Lá estavam as marcações! FDP de quem fez essas marcações meia boca, devia estar bêbado ou chapado! Rá! Chupa sociedade! Voltei a subir, agora prestando mais atenção a trilha. Porém, as marcações são realmente muito ruins! Me perdi de novo. Mas dessa vez voltei logo que vi que me perdi e achei a trilha novamente. Consegui ir mais longe dessa vez e vi algumas gringas, que de longe que me apontaram o caminho correto. Eu olhava as torres brilhando e as nuvens se aproximando, repetia o tempo todo, me esperem brilhando suas lindas! Nuvens, saiam daí!!

Eu cheguei até as Torres! Depois do susto e tamanho esforço, a vontade foi de chorar. O lugar é lindo demais. Eu estava exausta, assustada e imunda! Fiquei por uma meia hora sozinha, sentada na beira do lago congelado, eu e as torres, admirando aquele espetáculo da natureza. Cada vez que caía uma pedrinha das torres, o barulho que fazia no lago congelado era assustador. As nuvens infelizmente chegaram antes de mim até as torres, mas mesmo assim não tirou a beleza do lugar. Minha admiração foi tanta que quase esqueci de tirar fotos.



Resolvi voltar, com sensação de dever cumprido e alma lavada. Durante a descida encontrei a Liz e a Andrea subindo. Dei algumas orientações, para que elas não fizessem a mesma burrada que eu. A minha empolgação era tanta que fui descendo e não demorou para eu cair o primeiro tombo...no rio. Levantei, peguei meus bastões e continuei. Caí mais um tombo. Bem minha cara mesmo! E veio o terceiro tombo, e o quarto hahaha. Nesse último, um casal de brasileiros me ajudou a levantar, já que eu havia me machucado com os bastões na queda. Cheguei no acampamento suja, cansada e toda ralada, mas felizona...sorriso de orelha a orelha. Desmontei a barraca, arrumei as mochilas e fiquei descansando, esperando a Liz voltar.

Eu estava viva...e cheguei até as torres! Não queria mais nada além disso, e um prato de miojo!

Ojala!

PS. apenas por curiosidade, não fiz o circuito completo. Muitos acampamentos ainda estavam fechados e perderíamos muitos dias em Ushuaia, que era um dos nosso principais destinos.

2 comentários:

  1. Meeeh! Não sabia da história toda. Ficou mto legal o post. Raxei com o treinamento pra pumas lá kkkkkkk... E os tombos, Jesus depois reclama de terremoto. Kkkkkk!!!

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  2. Meeeh! Não sabia da história toda. Ficou mto legal o post. Raxei com o treinamento pra pumas lá kkkkkkk... E os tombos, Jesus depois reclama de terremoto. Kkkkkk!!!

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