quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Semana dos mortos no México

Festa estranha com gente esquisita, eu não to legal, não aguento mais birita... Como já dizia Renato Russo...



A semana dos mortos no México é algo surreal! Totalmente diferente de qualquer festa que você vê por aí. É o tipo de festa que mexe com suas crenças, e vira você de cabeça para baixo.
A carga cultural que vem junto com uma viagem é o que mais me motiva a ir cada vez mais a destinos exóticos e distintos. E isso foi um dos motivos que me levou a planejar um mochilão no México justamente no período de festividade dos mortos. Comemorar, comer e beber dentro de cemitérios pode parecer absurdo...mas porque não? Porque tratar a semana dos mortos com tristeza? É incrível como os mexicanos conseguem tratar um momento que para nós é de profunda tristeza em algo tão alegre, tão colorido e tão “cheio de vida”! Isso não quer dizer que eles não sofram com a partida de alguém, eles apenas encaram de uma forma diferente a morte. Entenda abaixo como é essa festa. 

Antes de qualquer coisa, não confunda as comemorações da semana dos mortos com halloween...e jamais chame a festa dos mortos de halloween na frente de um mexicano se você não quer alguém te olhando de cara feia! São festas diferentes, com propósitos bem distintos. 

Então vamos lá...

Para quem não sabe, a festa dos mortos no México é considerada patrimônio imaterial da humanidade pela UNESCO. O país fica alegre e em festa durante todo o mês de outubro, mas os dias 30, 31 de outubro, 01 e 02 de novembro são os mais fortes.

Andando pelas ruas, é comum se deparar com alguma das simpáticas caveiras mexicanas...rapidamente já havia me acostumado com elas, pois você as vê por todas as partes. Desde o início do meu roteiro, em Cancún já havia visto várias...e sempre muito divertidas.






Há também a famosa e elegante Catrina.

Quando eu estava planejando o mochilão, procurava a cidade onde acontecia a festividade mais popular...não a festa feita para os turistas, mas sim a festa dos moradores locais. Era isso que eu queria ver. E foi por isso que escolhi a meiga cidade de Oaxaca. Foi por isso que passei a madrugada no dia 31 dentro de cemitérios, tentando entender melhor essa festa cheia de cultura deles.

Chegando em Oaxaca, já senti um clima diferente na cidade. Muitos lugares estavam decorados, havia caveiras e altares montados nas ruas, feirinhas, muita gente andando fantasiado de morto nas ruas, nos shoppings, por tudo! Deveria ser sombrio e mórbido, mas não era! Tinha clima de festa, alegria e muitas cores! E sim, muita gente parecendo morta.


Catedral de Oaxaca



Olha o figurino do dog!

Praça Zócalo


Na praça Zócalo você encontra vários maquiadores que fazem aquelas pinturas de caveira...se quiser fazer uma maquiagem bem bacana para curtir as festas, ali você tem várias opções a preço justo. No último dia eu fiz uma bem bacana para curtir as festividades da noite.

Esse foi meu figurino

1º dia: Apresentações na praça de Oaxaca

No primeiro dia em Oaxaca, fiquei na cidade mesmo. Na praça em frente à Catedral, estavam acontecendo apresentações. E muita, mas muita gente parecendo morta! Havia umas fantasias que eram tão perfeitas que dava até aquela dúvida...será mesmo que é só uma fantasia ou eu tô vendo coisas? A imaginação começa a ir longe!

O clima na cidade era muito bom.

Buhh!
Oaxaca me pareceu muito segura, ao contrário de alguns outros lugares do México. Pode ir sem medo que não tem perrengue.

Nesse dia vimos muita coisa. Bandas tocando nas ruas e shoppings, apresentações, cachorro com fantasia de esqueleto, crianças fantasiadas, diversos mortos-vivos, caveiras, muitos altares, túmulos, a dona morte, e muitas outras criaturas desse submundo. E por incrível que pareça nenhuma delas veio puxar meu pé à noite!

As ruas pareciam um desfile de gente vindo de outro mundo...bizarro!


2º dia: Tour nos cemitérios

Para mim, esse foi o dia onde a cultura deles ficou mais explícita. Fechamos em uma agência em frente a catedral um passeio pelos principais panteones de Oaxaca. Sim, panteones são cemitérios.
Bora para os cemitérios!
Antes de sairmos para os cemitérios, recebemos flores, velas e o pão do morto. O pão pode ser mais clarinho ou escuro, depende da “cor” do morto. 


Geralmente vem até um desenho do rosto de uma pessoa nesse pão. Eu não fazia ideia do que fazer com essas coisas, e ao final do passeio acabei comendo o pão! Somente depois descobri que eram oferendas para deixar nos túmulos menos enfeitados. Eu comi a comida que era para os mortos! 

O primeiro cemitério, El Panteon General, me pareceu o mais moderno. Vi poucas famílias neste, a maioria dos visitantes eram turistas. Porém o cemitério estava muito bonito. Muitos túmulos enfeitados, alguns até comicamente.





Vi alguns túmulos que chamavam muito a atenção de tantas flores e velas. Depois acabei descobrindo que eram de pessoas famosas da região.




Começamos a andar em círculos, já estava quase na hora de sairmos para o segundo cemitério e não encontrávamos a saída. Era muita gente dentro do cemitério, sério! A fila para entrar era grande e a muvuca na saída também! Esse é o principal cemitério de Oaxaca, e para chegar até lá prepare-se para enfrentar um pouco de congestionamento.

Muvuca para entrar no cemitério

Entre um cemitério e outro, o guia nos servia o famoso Mezcal. Bebida típica e popular em Oaxaca, o Mezcal é um pouco mais forte que a tequila, e vem com um guzano de brinde. Guzano é uma larvinha que fica dentro da garrafa. Eu estava com muito frio, e o mezcal amenizava um pouco o frio.

O segundo cemitério, foi o Xoxocotlan...ali eu realmente entedi a essência dessa festa! Ao contrário do primeiro cemitério, no Xoxocotlan vimos muitas famílias junto aos túmulos. Praticamente todos os túmulos tinham algum familiar junto. Muitas pessoas levam suas cadeirinhas e passam a noite com seus entes que já se foram. Para eles é um dia especial, é o dia que seus entes queridos voltam para festejar e ficar junto com sua família. Por isso, eles levam várias comidas, pães, velas, muitas velas, flores, se arrumam e festejam junto aos “demais”. Dentro desse cemitério havia uma banda tocando músicas alegres. Não sei ao certo que estilo de música era, mas era algo alegre. Nada de tristeza e xororô!









E cada vez que encontrávamos o guia do nosso passeio, mais mezcal!  

Terceiro e último cemitério foi o .... pera...não lembro o nome! Talvez por culpa do Mezcal eu não lembro nome desse último cemitério, que gafe! Mas lembro exatamente como era. Assim como no Xoxocotlan, havia muitas famílias...também havia banda tocando, e o guia continuava nos servindo mezcal. Novamente, túmulos muito enfeitados, muitas cores, velas, comida, bebida e música! Nesse cemitério, muito mais antigo que os demais, os túmulos não eram feitos de concreto, e sim apenas terra.  As passagens eram um tanto quanto estreitas.




Talvez pelas fotos não consiga passar o quanto essa festa é única e intrigante. Finalizamos o tour feliz e em paz! Consegui entender melhor isso tudo, essa cultura e essa comemoração que de início parece um tanto quanto bizarra.


3º dia: Os comparsas de Etla

Decidimos assistir o desfile dos comparsas de Etla nesse dia. Fica um pouco afastado de Oaxaca, logo, deve-se ir com um tour. E o nosso tour foi a maior furada da viagem toda! Conseguiram estragar um evento que eu tinha grande expectativa.

Primeiramente, você assiste a uma apresentação bem tradicional. Não dá para entender nada! Mas as fantasias são bem bacanas.
Além de eles falarem um espanhol absurdamente rápido, a voz fica abafada debaixo das máscaras, é impossível entender qualquer coisa. Depois o povo todo se encontra em uma praça, onde há mais algumas apresentações e várias barraquinhas de venda de comidas típicas. Em seguida passa o desfile dos comparsas.
Eu achei bacana o desfile em si. Porém é um passeio que hoje eu descartaria. Me arrependi de não ter ficado em Oaxaca para assistir as apresentações de lá. Pode ter sido por conta da agência que contratamos.


O teatro onde ninguém ouve nada

Passagem do desfile dos Comparsas


Sobre o tour...Seria cômico se não fosse trágico! Bizarrice total!

Primeiramente, atrasaram mais de uma hora para nos buscar no hostel. No meio do caminho pararam para trocar o guia. Pararam em vários pontos da cidade para buscar gente. No meio da festa a guia simplesmente sumiu! Não nos explicou nada sobre o evento...frustrante!  Uma festa tão cheia de cultura, e saímos de lá entendendo nada. Quando enfim encontramos a guia, ela nos levou até a van para voltarmos a Oaxaca. A van estava em um lugar onde NUNCA iríamos encontrar. Fazendo a chamada, a guia se deu conta que faltava uma pessoa na van, a tal da Érica. Um gringo saiu correndo da van para tentar encontrar a Érica no meio daquela multidão toda...aí a guia lembrou que Érica não estava no grupo, não havia pago e não tinha ido. A guia saiu correndo para procurar o gringo, e enquanto isso, ficamos aguardando na van. O gringo voltou para a van sem a guia. Passou uns 15 minutos e apareceu a guia...trazendo consigo a Érica! Sim! A Érica tinha ido no passeio. Desordem total! No fim saímos rindo da situação, mas me senti um tanto quanto frustrada com o passeio...


Para pensar:

Depois de todo esse relato, conseguem assimilar isso tudo? Festa, bebida, comida, bandas, alegria e várias pessoas com os rostos pintados, saindo alegres e em paz de dentro dos cemitérios? Isso é cultura! É respeitar outras formas de encarar a vida e a morte. Comemorar o dia dos mortos festivamente não quer dizer que eles não sofram com a partida de alguém. Sim, eles sofrem, sentem falta e choram. Porém encaram as coisas de uma forma diferente, uma forma mais leve. Afinal de contas, independente da sua crença, para eles a vida continua do outro lado. E enquanto houver amor e carinho, isso deve ser comemorado. Isso é vida.





domingo, 30 de julho de 2017

Travessia a pé nos Lençóis Maranhenses

Imagine uma cena de filme, onde você é o protagonista e o cenário principal é um gigante deserto de areia com lagoas límpidas formadas pela água da chuva. Nesse deserto não há ninguém por perto, é tudo seu! Por mais que você ande, não encontra ninguém...apenas areia e água. E você não se cansa de olhar as dunas e lagoas que parecem que foram pintadas a mão. E quando o sol nasce e se põe, é um espetáculo indescritível.
Essa é a sensação de fazer a travessia nos lençóis maranhenses a pé! 
Meus queridos, essa travessia nos lençóis merece um post especial. Não só pela aventura e pelas belas paisagem, mas por algumas transformações na forma de ver as coisas da vida.



que é a travessia?

O parque nacional dos lençóis maranhenses já é um ponto turístico muito importante no Brasil, porém poucos sabem que pode-se fugir um pouco dos tradicionais passeios turísticos e explorar muito mais essa maravilha da natureza, da melhor forma...a pé! Eu fiquei sabendo que existia essa possibilidade através de um amigo mochileiro que havia feito a mesma travessia um ano antes.
Existe o percurso de 3 dias e o de 4 dias. Eu optei pelo de 3 dias e duas noites. O roteiro foi: Barreirinhas, Vassouras, Atins, Canto de Atins, Oásis Baixa Grande e Lagoa Bonita. O trekking de 4 dias passa também pela queimada dos Britos. 



Como chegar?

Você tem acesso aos Lençóis Maranhenses pela cidade de Barreirinhas ou por Santo Amaro. Como eu já estava em contato com a agência Costa Leste Aventura, optei por fazer iniciando por Barreirinhas. Aliás, indico muito a Costa Leste. Eu os procurei justamente por uma boa indicação que tive, e fica aqui meu agradecimento ao meu amigo Anderson, que me fez a indicação. E eu continuo recomendando o trabalho deles, preço justo e acessível, super atenciosos e profissionais.
A forma mais fácil de chegar a Barreirinhas é ir até São Luis, e de lá pegar uma van ou pode-se ir de ônibus. A diferença de preço é mínima, então eu recomendo ir de van, pois te buscam onde você estiver e te deixam na porta de sua hospedagem em Barreirinhas. Só o que você gastaria em translados até a rodoviária e até as hospedagens, provavelmente passaria do preço da van, somando o valor do ônibus.
Algumas vans saem do aeroporto. Então se você não se hospedar em São Luis, pode ir direto do aeroporto até Barreirinhas. Eu sinceramente achei São Luis uma cidade um tanto quanto perigosa. Se fosse fazer hoje, eu iria direto a Barreirinhas. Se você estiver muito cansado da viagem até São Luis, aí eu recomendo dormir em São Luis para descansar, pois serão mais 4 horas de viagem até Barreirinhas.

Enfim em Barreirinhas! A aventura vai começar!


Barreirinhas!
Cheguei em Barreirinhas por uma das vans que levam de São Luis até lá, e me hospedei no hostel Casa do Professor. O hostel é simples e organizado. O professor é super atencioso e prestativo. E o café da manhã, simplesmente maravilhoso! Preparado pelo próprio professor.


Eu e o Professor
Em seguida fui até a agência para me passarem as últimas orientações e depois junto com o guia Antônio, fui ao mercado comprar algumas frutas e bolachas para comer durante a travessia.


1º Dia de travessia - 8km

O primeiro dia iniciamos juntamente com um passeio tradicional, com mais visitantes. O barco segue pelo rio Preguiças e faz sua primeira parada em Vassouras. Lá tem um ponto de apoio (restaurante), e vários macaquinhos, que fazem a alegria dos turistas. Os bichinhos chegam a subir em você para pegar comida! Precisa-se um pouco de cuidado com seus pertences, pois eles também podem carregá-los.


Perdeu loira! Essa banana não te pertence mais!
Em seguida fizemos uma parada no farol do Mandacaru. Lá de cima, tem uma vista bem bacana e ao sair, antes de continuar o passeio, há uma barraquinha de caipirinhas com frutas locais, para você apreciar antes de ir adiante.



Paramos para almoçar na praia do Caburé. Lugar turístico, preço turístico! Achei as coisas absurdamente caras! Se quiser economizar, leve seu lanchinho. O bolso agradece.

Logo após o almoço é que iniciamos nossa caminhada. O sol estava muito forte, e às 16 horas paramos para aguardar o calor diminuir um pouco. Seguimos viagem, eu, o guia Antônio e Hernan, um argentino que estava em viagem já há algum tempo. Ao chegar nas primeiras lagoas, conhecidas como pequenos lençóis meu queixo já caiu! Era lindo demais! Segundo o guia, aquilo ali não era nada ainda...a grande beleza dos lençóis ainda estava por vir.


Pequenos lençóis
Tomamos banho nas lagoas e aguardamos o espetáculo do pôr do sol. Enquanto isso entre uma conversa e outra, nosso amigo argentino ganhou o apelido de mandarina...e assim foi até o final da nossa travessia, piada daqui, risadas ali e muitas histórias.
Enfim o pôr do sol..Pensa numa coisa linda!


Pôr do sol nos pequenos lençóis
Assim que o sol se foi, caminhamos até o redário do Seu Antônio, em Canto de Atins. O lugar é super simples. Você chega, escolhe a rede que vai dormir e eles te dão um lençol e uma toalha de banho. Como o redário é todo aberto, não há paredes, e você vai precisar sim do lençol, pois bate um ventinho fresco a noite.


Redário do Seu Antônio
Fui tomar um banho e havia dois pequenos lagartos e um sapo dentro do banheiro. A briga foi grande para expulsar aquela bicharada do banheiro e tomar um banho tranquila. Minha arma de guerra foi o esfregão do vaso sanitário! Preferi lutar bravamente do que começar a berrar como uma turista louca de cidade grande!
Lembrando que estávamos em um grande deserto, logo não há energia. Eles contam com um gerador que fica ligado até as 21hs no máximo. 
A janta foi maravilhosa. A comida de lá é espetacular. Dividimos entre nós o famoso camarão grelhado e um peixe grelhado. Comida excelente e preço justo!
Fomos dormir super cedo, pois no outro dia acordaríamos as 3 horas da manhã para seguir viagem. Achei que não conseguiria dormir em rede, mas o cansaço era tanto que apaguei logo que deitei.


2º dia - Canto do Atins e Baixa Grande - 23km

Nesse dia entendi tudo o que o guia queria me dizer quando dizia que o que eu tinha visto no dia anterior não era nada. Lençóis Maranhenses é um espetáculo de beleza! 
Iniciamos nossa jornada as 3:30, depois de tomar um café super simples (café e pão com margarina). Para quem tem alguma restrição alimentar, é melhor levar algumas coisas a mais para complementar seu café da manhã.
Caminhamos por muitos quilômetros a beira da praia. Sinceramente, essa parte hoje eu preferia fazer de quadriciclo. Claro que assistir o nascer do sol na beira da praia com o pé na água, não é nada mal, porém essa caminhada foi bastante cansativa. Meu tornozelo já estava do tamanho de um pão caseiro e começou a doer já nas primeiras horas. Foram 13 km de caminhada na praia.


Uma pequena queda dágua na praia

Finalmente chegamos nas dunas. E aí começou o espetáculo...uma lagoa mais linda que a outra! O argentino que estava com a gente parecia criança pequena de tão feliz! Piscava o olho e ele estava dentro da água, todo felizão! 
Cada lagoa tem sua particularidade...você encontra várias colorações, tamanhos, algumas secaram, algumas tem vegetação dentro e outras são extremamente límpidas. Algumas lagoas são antigas, algumas desaparecem e outras novas se formam com o passar dos anos, devido a força do vento, que vai desenhando esse cenário mágico. Toda a água que há nessas lagoas são água de chuva. Por isso a melhor época para se visitar os lençóis é depois da época de chuva onde as lagoas estarão cheias, de junho à outubro. Eu fui em junho e foi lindo demais.






Será que a água é limpa?
Já havíamos caminhado muito! Meu tornozelo doía muito e comecei a fazer bolhas no pé. Não tinha certeza se aguentaria o terceiro dia de caminhada...
Chegamos no redário da Dona Dete e do Seu Moacir por volta das 12:30hs. O resto do dia foi para descansar e se preparar para o terceiro e último dia.

A dona Dete e seu Moacir são muito atenciosos. Fui muito bem tratada...dona Dete demonstrou até certa preocupação com meu cansaço e com minhas bolhas, mas acreditou que eu aguentaria até o final.

O redário da dona Dete é um pouco diferente do redário do seu Antônio. As acomodações são fechadas.


Redário da dona Dete


Para conseguir chegar ao banheiro, tive que "pedir licença" para os animais que estavam fazendo guarda por ali. O banho estava bom, porém quando alguém no banheiro do lado ligava o chuveiro, acabava a água do meu chuveiro. Mas nada demais, consegui finalizar meu banho e descansar.


Banheiro vigiado!
À noite chegaram mais alguns moradores locais, e fiquei de papo um pouco com eles. Pude entender um pouco melhor sobre o cotidiano deles e como eles admiram aquele lugar. Levam uma vida muito simples, mas são pessoas muito felizes com isso...pessoas muito do bem! Vida tranquila, vivendo com o mínimo possível, sem energia e criando tudo que precisam para sua alimentação.
Era tanta paz naquele lugar, que ao pensar na minha vida corrida de cidade grande chegava a me causar certa perturbação.

Era 20:30 quando peguei minha rede e fui dormir admirando as estrelas e o lindo céu daquele desertão!


3º dia - Baixa grande e Lagoa Bonita - 19km

Acordei sentindo muitas dores...não sabia se conseguiria continuar, meu tornozelo estava me matando, e as bolhas do pé não ajudavam em nada! Já estava pensando em quanto sairia o resgate (sim, você pode desistir...eles te buscam de quadriciclo de onde estiver). O guia Antônio me incentivou a continuar e seguimos em frente. Percebi que ele também estava um pouco preocupado com minhas dores. Saímos as 4:30 da manhã.
Caminhei a passos de tartaruga. Era muita dor em uma única pessoa. Entenda uma coisa...por mais que você esteja acostumado a praticar exercícios físicos, caminhar na areia, subindo e descendo duna, atravessar lagoas, alternar entre areia fofa e areia batida, é MUITO cansativo. Minhas dores não estavam nas pernas, não sentia nenhuma dor muscular, mas minhas articulações, as bolhas e o tornozelo me matavam...a sola do pé parecia nem existir mais. A areia não é quente, mas de qualquer forma maltrata o pé. Cada passo era uma tortura.

O guia acredito que já nem ouvia mais minhas reclamações rsrsrs...eu estava mais chata que o burrinho do Shrek, perguntando se já estávamos chegando. Reclamando das dores infinitas e me perguntando porque eu tive a ideia dessa travessia. Ainda bem que ele foi muito paciente!

O dia começou a amanhecer e chegamos em um certo ponto que é impossível descrever a beleza do local. Juro que não senti mais qualquer dor quando vi aquilo. Foi uma injeção de ânimo para continuar até o final! Já estava decidida a continuar e assim foi. Tirei muitas fotos e fui até o final na garra.








Ao final do percurso, tem uma bandeira laranja indicando o fim. Foi uma mistura de sentimentos quando agarrei a bandeira...não acreditava que eu tinha conseguido! Mesmo demorando 2 horas a mais do que a média, eu consegui! Não acreditava nas paisagens maravilhosas que eu acabara de ver, mal acreditava na minha superação. Aí está a prova!


Fim!
Descansei um pouco no ponto de apoio, e ao final da tarde seguimos rumo a Barreirinhas, de jardineira. O motorista era meio doidinho, mas foi bem divertido.

Cheguei em Barreirinhas já era noite e eu não tinha hospedagem. Consegui um quarto na pousada da Deusa, bem perto do centrinho. Até cogitei voltar a casa do professor, mas já era tarde e só de pensar em caminhar mais um pouco, desisti da ideia! Tomei um banho e saí para comer algo. A noite à margem do Rio Preguiças é bem bacana..muitas mesinhas, barzinhos e música ao vivo. Meu cansaço era tanto que apenas comi algo, caminhei um pouco para sentir a noite da cidade e voltei para a pousada...e com a sensação de dever cumprido! E se valeu apena todo esse cansaço? Óbvio que sim! O lugar é coisa de cinema. Você não vai ver nada parecido na vida. É um passeio que recomendo aos aventureiros de plantão.


Dicas: eu não ficaria um dia em São Luis. Pegue uma van e vá direto a Barreirinhas. Se você chegar no aeroporto até umas 16 horas, ainda consegue uma van. Eles cobram em torno de 60 - 70 reais.
Não leve frutas que estragam rápido. No segundo dia as uvas e as ameixas que levei já estavam bem ruins.
Leve uma meia e use assim que sentir que seu pé está sendo maltratado. As meias ajudam a aliviar o cansaço nos pés. Você vai parecer um gringo usando meia na areia, mas é muito válido.
Procure uma boa agência e um bom guia. Para mim o trabalho do guia Antônio e da agência Costa Leste foi impecável. Foram simplesmente maravilhosos.
Não há como fazer por conta própria esse trekking. Precisa de um guia que conheça muito bem o lugar. Se perder naquela imensidão chega a ser perigoso.

que mais aprendi nessa travessia: respeite a natureza! Ela é responsável por coisas inimagináveis e paisagens magníficas. Preserve isso!
Tire o pé do acelerador. Nossa vida corrida e agitada nos consome demais. Conviver três dias com pessoas que moram nos lençóis, vivendo com tão pouco, tão simples, pessoas tão incríveis, foi uma experiência única! Nem sempre a sua forma de viver é a melhor forma de viver. Isso depende das prioridades de cada um.
Desligue-se do mundo sempre que puder. Três dias sem sinal de celular, sem redes sociais, sem qualquer notícia de nada, me fizeram muito bem.
Os 50km de caminhada no deserto me fizeram pensar em muitas coisas. Foi um exercício de auto conhecimento, de colocar a cabeça no lugar, traçar novos objetivos e entender a diferença entre o que realmente é importante e o que é supérfluo.